Olá, esse é um blog que se destina à potencializar e divulgar o uso da música (canção) como recurso didático de ensino dos conteúdos da disciplina História, mas que pode e deve se estender às outras áreas do conhecimento. Então, segue abaixo o meu artigo de Pós Graduação em História Pública da Bahia e Ensino, onde alimento tal proposição: Boa leitura:


UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR – UCSAL.
 PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
 ESPECIALIZAÇÃO INTERDISCIPLINAR
 EM HISTÓRIA PÚBLICA DA BAHIA E ENSINO





Música, Cultura e Ensino de História
A canção popular na sala de aula






HÉLIO ONDIÁRIA VASCONCELOS FILHO








SALVADOR – Outubro, 2019






UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR – UCSAL.
 PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
 ESPECIALIZAÇÃO INTERDISCIPLINAR
 EM HISTÓRIA PÚBLICA DA BAHIA E ENSINO










Música, Cultura e Ensino de História
A canção popular na sala de aula










Artigo Científico apresentado ao Curso de Especialização em História Pública da Bahia e Ensino, da Universidade Católica do Salvador, como requisito para obtenção do grau de Especialista.

Orientadora: Ma. Alessandra Carvalho da Cruz




Salvador, Outubro de 2019.




Resumo
O presente artigo tem o objetivo de analisar a importância da música popular brasileira no ensino de História nas Escolas públicas da Rede Estadual de Salvador. A pesquisa de campo fundamentou-se em levantamento de dados, em relatos de jovens estudantes e nas narrativas dos Professores em duas escolas de ensino fundamental II. Nas narrativas construídas pela comunidade escolar é possível perceber o significado a música tem como ferramenta e recurso didático em sala de aula no processo ensino/aprendizagem de muitas disciplinas e especialmente na compreensão de conteúdos específico da disciplina história. O artigo investiga também as razões para o envolvimento dos jovens com a linguagem musical brasileira a partir do levantamento e consulta de fontes bibliográficas que trabalham com a história da música na formação da nossa identidade nacional.

Palavras-Chave: Música, Cultura, Ensino de História.

Introdução:
Diante do advento da velocidade das tecnologias da comunicação e informação e como consequência uma presença cada vez maior dos jovens no mundo virtual, o ensino de história tradicional centrado na exposição do professor e leitura de livro didático, tem cada vez mais se tornado distante do interesse dos alunos na rede pública de educação básica em Salvador. Essa pesquisa surge dessas inquietações vivenciadas em sala de aula, nos estágios de observação e intervenção, na disciplina de História. Buscar alternativas que potencialize esse  ensino é um  os principais desafios para o Professor de História na contemporaneidade.
Ao observar o comportamento dos alunos, é claramente perceptível o uso constante e de algum modo até abusivo do fone de ouvido conectado ao aparelho celular (smartphone) o que denota amplo gosto por música, ao estarem a todo instante, dentro e fora da sala de aula, ouvindo música. Essa constatação foi fundamental para ancorar a reflexão sobre a possibilidade de incorporação dessa linguagem e fonte como uma ferramenta didática potente e lúdica, que preenche parte dos requisitos necessários ao aproveitamento e apreensão dos conteúdos da disciplina de História, no ensino em sala de aula, e demais espaços.
Como bem disse Tim Maia na famosa canção Canário do Reino:

Não precisa de dinheiro, pra se ouvir meu canto, eu sou canário do reino, e canto em qualquer lugar, em qualquer rua de qualquer cidade, em qualquer praça de qualquer país, levo o meu canto puro e verdadeiro, eu quero que o mundo inteiro se sinta feliz.
O presente artigo é parte inicial da proposta argumentativa para a elaboração de um projeto de intervenção e aplicação pública, cujo objetivo é sugerir a potencialização da música como recurso didático em sala de aula e demais espaços de ensino, necessária e fundamental para a assimilação dos conteúdos da disciplina história.
Nesse sentido, apresentarei uma análise introdutória da música como prática cultural na História do Brasil e principal símbolo de identidade nacional. Posteriormente além de apresentar os resultados da pesquisa de campo que realizei com Professores e alunos do Colégio Estadual Pedro Calmon e Colégio Estadual Alberto Valença e também do Centro Educacional Asas da Educação e do Colégio Hildeberto Cardoso, escolas da Rede Privada de Salvador, para a compreensão das dimensões da musicalidade em nossa cultura dialogo com uma rica e consolidada bibliografia que reúne pesquisas sobre o uso da música como ferramenta didática de ensino.

A Música na História do Brasil
Nesse capitulo apresentaremos um breve histórico da evolução da música no Brasil, como forte elemento de agregação social, mas sem a pretensão de aprofundar a relação histórica, pois o objetivo aqui é fomentar a música como potente recurso didático de ensino dos conteúdos de história.
A música popular brasileira tem sua ancestralidade amplamente enraizada na diversidade dos povos formadores do Brasil. Desde os nativos indígenas, portadores de uma rica cultura, até as sociedades africanas e europeias, todos contribuíram significativamente para a formação do repertório artístico e musical nacional, sendo esse patrimônio imaterial disseminado nos espaços sociais do nosso território político ao longo dos séculos, desde a colonização até a contemporaneidade.
É ainda nesse contexto colonial, onde brancos (europeus) e negros (africanos e indígenas) se misturavam, readaptando os seus costumes e crenças na interação do cotidiano popular, que a música brasileira iria formar a sua identidade, e conferir ao Brasil uma gestação musical diferenciada, assim como em outros ramos das artes.

Intensificada a partir do século XVIII, quando o espaço colonial brasileiro começa a ganhar ares urbanos, passando pela República, chegando aos nossos dias capitalistas, a música produzida no Brasil foi e é absorvida por toda a população brasileira. Destarte, ser a música uma expressão artística capaz de exteriorizar qualquer tipo de sentimento, de determinada cultura, dentre todas as influencias culturais diversas que estruturaram o Brasil, essa musicalidade se apresenta também, pela amplitude que tem como ferramenta pedagógica auxiliar na relação ensino/aprendizagem, como forma lúdica e prazerosa, de assimilação dos conteúdos da disciplina história.
Assim como no passado da recente Historia do Brasil, a cultura do povo brasileiro se manifestou, também, através da música. A música é para a cultura do povo brasileiro um ponto de apoio, onde se exteriorizam os seus sentimentos, sejam de alegrias, tristezas, dominação ou resistência.
Se a música foi usada como instrumento de dominação e prestigio social, em determinadas épocas da historia brasileira, ela também foi e continua sendo objeto de reação dos dominados.
A influência da música europeia estava posta no espaço colonial e imperial brasileiro, não só nos espaços sociais nobres, através dos consertos musicais e das apresentações de óperas, mas também no seio das classes baixas, nos terreiros, nos barracos e praças urbanas, onde os negros e seus descendentes por questões religiosas, festejos ou resistência, promoviam os seus batuques e rituais, cantando e dançando até altas horas.
Salvador, Rio de Janeiro e Ouro Preto eram os centros urbanos que, sob a influencia europeia, receberam os investimentos econômicos e sociais, com os quais, devido ao crescimento populacional, as elites investiriam nos ares do lazer e do entretenimento.
Em fins do século XVIII surge a modinha, gênero musical lírico de pequena duração, e que junto ao lundu (batuque dos negros, com acompanhamento de viola) atravessou para o século XIX para ser a base musical de gêneros como o Choro, o maxixe e o samba já no século XX, atestando daí a fusão de elementos musicais das culturas europeia e afro-brasileira. Para Marcos Napolitano (2002, p.28):


A modinha trazia a marca da melancolia e certa pretensão erudita na interpretação e nas letras, sobretudo na sua forma clássica, adquirida ao longo do II Império. Quase uma ária operística, com inclinações para o lírico e o melancólico. A modinha surge em fins do século XVIII, derivada da moda portuguesa.

Marcos Napolitano (2002, p.30) é enfático em afirmar como prática sensível, sofisticada e marcante na história do Brasil o fato de hegemonicamente os encontros sociais, religiosos, celebrações rituais, etc. são sempre acompanhadas de  apresentações musicais, cantigas, danças e encenações ritmadas pelo cancioneiro popular. Segundo Napolitano (2002, p.30):

[...] O que importa salientar é que, na “história geral” da música brasileira, estes “gêneros” aparecem como matrizes de uma série de práticas musicais que marcarão a sociabilidade em torno da experiência musical.

Nasce o Maxixe em 1875, e que seria um dos embriões do nosso samba, tendo aclamado sucesso na Europa nas décadas posteriores. Data de 1895 uma adaptação musical feita no carnaval carioca, de uma chula, que era interpretada na Segunda Feira Gorda da Ribeira – Salvador (ajuntamento de pessoas que esperavam a condução/transporte, para retornarem às suas casas, ao final da Festa do Bonfim), sendo chula transformada em cantiga de desfile de rancho (grupo de foliões fantasiados que saiam as ruas no carnaval, cantando e dançando).
1916 é oficializado como o ano do nascimento do Samba, com a gravação de "Pelo Telefone", de Donga e Mauro de Almeida, no Rio de Janeiro, e a partir daí, outros estilos e gêneros musicais surgiriam, durante todo o século XX.
Nas Américas o movimento que gravitava em torno da música popular brasileira, sofrera forte influência europeia, por conta da dominação da cultura elitista, entretanto, com o crescimento das camadas populares urbanas, o movimento musical popular assumiu a miscigenação dos três principais grupos étnicos, o europeu, o africano e o indígena, o que deu origem a outros gêneros musicais, como o jazz norte-americano, o samba brasileiro e o bolero mexicano, o que viria a se desenvolver no contexto cultural, na dinâmica da releitura, assimilação, adaptação, proteção e preservação das tradições e identidade étnica - sui generi - desses povos que se misturavam em solo americano. Dessa forma, na primeira década do século XX, nesse laboratório cultural musical popular americano, os novos gêneros musicais consolidavam o caminho para a MPB - Musica Popular Brasileira.

Não devemos esquecer que as instâncias culturais oficiais (municipais e federais) interviram no mundo da música popular, tentando enquadrá-lo sob políticas culturais de promoção cívico-nacionalista. Portanto, cultura popular, cultura letrada, mercado e Estado, no cenário musical brasileiro, não se excluíram, mas interagiram de forma assimétrica e multidimensional, criando um sistema complexo e consolidando a própria tradição. Este cenário está na gênese do novo tipo de música popular brasileira, de feição urbana, culturalmente híbrida e aberta a Inovações estilísticas e técnicas, surgida nos anos 30. (Napolitano, 2002, p.37)

Durante as décadas de 1920 e 1930 o samba se consolida como gênero musical que embalará nos anos seguintes, com certa predominância, a vida cotidiana da sociedade brasileira. Já em 1922 nascem as canções sertanejas oriundas dos meios rurais do Norte e Nordeste do país, principalmente o xaxado e o baião que se mesclam com as modas de viola, chulas e emboladas, para reforçar o estilo caipira de fazer musica.
A partir de 1930, surge a marcha-rancho, gênero musical urbano, intensificado pela propagação da indústria fonográfica e da potência do rádio. Noel Rosa lança o samba "Com que Roupa Eu Vou", como sátira da vida carioca, marca registrada de sua obra, que iria eternizar a chamada "época de ouro do rádio" e a expansão da música nacional. Nesse sentido diz Hermeto (2012, pp.11-12):

O samba de Noel Rosa, escrito no início dos anos 1930, virou algo muito maior do que um sucesso do carnaval carioca. Gravado por diferentes artistas, em tempo, ritmos e timbres diversos, não só é uma das preciosidades do nosso cancioneiro, como também se transformou em uma espécie de bordão.

Com a urbanização e a industrialização, mediante os novos gêneros musicais de cunho popular, a indústria fonográfica se intensificou, propiciando a expansão do rádio, do teatro e do cinema. A música agora estruturada na indústria e no entretenimento se solidificou no seio das camadas populares.

Em meados dos anos 40, o rádio era um veículo de comunicação consolidado e em franco processo de expansão, sobretudo entre as classes populares urbanas. [...] Além do rádio, as chanchadas cinematográficas foram o grande veículo do tipo de música popular... (Napolitano, 2002, p.39)

Novos padrões de rítmicos nasceram ao compasso da dança, onde a música erudita deu lugar à uma música miscigenada, gestada na América, fruto das misturas dessa arte popular entre etnias, como diz Napolitano (2002, p.33): “A música brasileira moderna é, em parte, o produto desta apropriação e desse encontro de classes e grupos socioculturais heterogêneos.”

A música vinda da Europa não era mais a mesma no século XX. Adaptada ao mundo americano, a erudição europeia deu lugar ao canto natural e ritmado, dos desejos do prazer e da legitimação popular, em cantar as coisas da sua gente, da sua vontade de viver e propagar as coisas do Brasil, nesse Brasil que se tornava cada vez mais o Brasil musical, dos brasileiros.
A música popular brasileira tem um lugar sociogeográfico que seria tanto mais autêntico e legítimo quanto mais próximo do lugar sociogeográfico das classes populares: o “morro” e, posteriormente, o “sertão”. (Napolitano, 2002, p.37)

Em 1939 a “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso ganha o mundo, mostrando que a música popular brasileira veio para ficar. Já em 1946, o Baião de Luiz Gonzaga era cantado de Norte à Sul do Brasil, surge como gênero musical que cantava sobre o cotidiano urbano e rural, coisas do interior, do caipira e do folclore brasileiro, com forte apelo crítico, sendo amplamente aceito, embalando o Brasil musical até os anos 70, já ao lado da recente Bossa Nova, do Samba e do Rock In Roll.

O Nordeste, como um todo (sobretudo Bahia, Pernambuco, Paraíba e Ceará), também desempenhou um papel importante, fornecendo ritmos musicais, formas poéticas e timbres característicos que se incorporaram à esfera musical mais ampla, sobretudo a partir do final dos anos 40. No final desta década, o Baião de Luiz Gonzaga se nacionalizou, via rádio, consagrando definitivamente a música nordestina nos meios de comunicação e no mercado do disco do “sul maravilha”. Aliás, todas as regiões do Brasil têm uma vida musical intensa [...]. (Napolitano, 2002, p.27)

Surgem os Festivais da Canção Popular, para explorar, ainda mais, a propagação da MPB, no Brasil à fora, e com  ela, alimentar a indústria musical. Com o surgimento da Tropicália, com eixo no centro Rio-São Paulo, outros ritmos e gêneros musicais se entrelaçam e se diversificam nas décadas seguintes. O rock, o reggae, o funk, o rap, o sertanejo, o samba, o pagode e o axé-music, paralelamente, se processão nas esferas urbana e rural, fortificando a eclética MPB, que industrializada, iria ganhar reforço, no século XXI, com a tecnologia do mundo virtual.

A musicalidade baiana e soteropolitana
A Bahia, durante o Período Colonial, herdou da musicalidade europeia e, da efervescência do batuque dos tambores africanos, o que serviu para aproximar a cultura de brancos e negros em torno de seus acordes musicais. Essa herança musical dialética dominante/dominado tinturou a musicalidade baiana em diversos estilos e ritmos, o que fez da Bahia um celeiro musical nacional, dessa arte, dessa resistência.

A vida musical na virada do século XVIII para o XIX, no Brasil, não assistiu apenas à formatação destes dois gêneros de “música ligeira”, como se dizia — a modinha e o lundu — mas também a uma febre de música religiosa, sobretudo em Minas Gerais, mas também em Olinda, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. Em sua maioria, os músicos que praticavam este tipo de música eram mestiços ou mulatos e se organizavam em irmandades religiosas (como a Irmandade do Rosário, que congregava negros e mulatos) e produziam uma música delicada e sofisticada, voltada para a liturgia da Igreja Católica. (Napolitano, 2002, p.29)

Outrora, nos terreiros da casa grande, nos quilombos, nos cortiços, e hoje nos guetos, a música continua alimentando sentimentos de alegrias e esperanças, de que tudo pode mudar e melhorar. É essa musicalidade baiana, vinda de além-mar, que alimenta e manifesta a vontade de vitória, crescimento e liberdade do povo. Nesse sentido diz Goli Guerreiro (2000, p.12):

O que antes soou dos porões dos navios negreiros, nas senzalas, no culto aos orixás e atendia apenas à demanda de etnomusicólogos, ocupou com diversos transes e rótulos o cenário e a mídia, não se determinando o gosto estético nacional como criando um ambiente e uma economia de grande significado.
Também na Bahia os cânticos religiosos das matrizes africana e europeia, ao som dos atabaques e dos violinos, paralelo ao festejar do samba de roda, marcado por tambores e pandeiros, contribuíram para fermentar o progresso do processo cultural musical soteropolitano, unindo as diversidades étnicas numa só cor, dos diversos ritmos musicais.
Vejamos o que diz a pesquisadora Alessandra Carvalho da Cruz (2006), em sua dissertação de mestrado:  

O caminho para a legitimação do samba foi percorrido muito mais pela contramão do que pela pura concessão. Pois o samba já era plenamente reconhecido e valorizado pela maioria da população, tantos os negros, afro-descendentes, como pelos brancos pobres, que já utilizavam-no maciçamente como a trilha sonora de suas vidas.
[...] Mostraram que a construção de um país novo, só poderia se dar a partir da revisão e conseqüente superação, de problemas que vinham de longo tempo. Lembravam, ao retomar a sua história, que sempre trabalharam. Construíram a nação, suas riquezas materiais, mas a sua história continuava marcada pelos valores da exploração, a busca de uma riqueza a partir do esforço alheio, e da manutenção da diferença entre as classes.

A musicalidade cultural soteropolitana atravessou o ultimo século, se reinventando e se reelaborando, conforme o cenário politico, econômico, religioso e social local, como resposta aos anseios populares, de dominantes e dominados. Do Regime Militar aos nossos dias, o palco musical baiano e soteropolitano, recheou-se de estilos e gêneros musicais, como frevo e o samba-reggae, até chegar ao Axé Music.

Essa música regional era considerada pelos ouvidos brasileiros uma trilha carnavalesca, e por isso mesmo só era consumida, até o final dos anos 80, no período de festas. Mas esta característica sazonal vai se diluir com a ascensão comercial do novo movimento musical baiano – a axé-music, uma música de elementos estéticos brancos e negros que foi viabilizada pela inserção do samba-reggae nos estúdios de gravação e na mídia. (Guerreiro, 2000, p.131)
A musicalidade soteropolitana, agora estruturada em suas vertentes etno-culturais, é admirada pelo mundo afora, como expressão eclética e genuína. A musicalidade baiana e soteropolitana é autêntica representante de um povo, que diante de suas diferenças sociais, faz da música um forte elemento de ligação igualitária das diversas camadas sociais, como se evidencia no popular Carnaval de Rua de Salvador, onde existem as divisões de classes, mas todas desfrutam da mesma sonoridade da diversificada musicalidade baiana. Em A Trama dos Tambores, diz Goli Guerreiro (2000, p.15): “[...] Através de sua música, [...] a Bahia alcança um pico de evidência em todo país, ao mesmo tempo em que se afirma como uma referência musical no Novo Mundo.”
E continua:
Nos anos 80, o meio musical de Salvador estava tramando um novo movimento. A música percussiva produzida pelos blocos afro – o samba-reggae -, cujas letras celebravam o universo negro, saía das periferias da cidade para ocupar um lugar de destaque na cena musical baiana e não tardaria a aparecer nos cadernos de cultura do país como um criativo pólo do mundo da música no Brasil.
Se a classe dominante, através do poder politico e econômico, dita as regras de comportamento da sociedade, o mesmo não acontece com a música, porque ela tem o poder de unir as classes, para celebrar seus feitos, seja de resistência, seja de comunhão, seja de alegria ou tristeza, seja para alimentar esperanças e sonhos de liberdade, igualdade e fraternidade.
A música pelo seu caráter interdisciplinar, no transitar cultural, expressando a tensão entre dominantes e dominados, se constitui em potente ferramenta de auxilio do processo ensino/aprendizagem. Desse modo, a música, pela grande influência cultural que exerce na sociedade, carece de efetivo e potencial projeto pedagógico, na relação ensino/aprendizagem, no que se refere à cultura e à educação escolar, o que procuraremos abordar, nas linhas que se seguirão mais adiante. É o que se afirma nos Parâmetros Curriculares Nacionais (l998, p.86):

A perspectiva de conferir à escola a responsabilidade de elaboração e desenvolvimento de seu projeto educativo não deve significar omissão das instâncias governamentais, tanto nos aspectos administrativo e financeiro como também no pedagógico.

A influência cultural da música
Determinar o conceito do que é música e suas expressões artísticas (poesia, ritmos, danças, performance, etc.), não é algo fácil, principalmente porque esse prática cultural propagadora dos objetos e objetivos das ações humanas, sejam individuais ou coletivas, implicam em desejos, sentimentos e relações de submissão e poder, dos quais o ser humano se vale, no exercício natural de suas atitudes, expondo a cultura, da qual é agente reagente e herdeiro,  como afirma Ferreira (2017, p.18):

A música, por mais que seja considerada uma das mais puras e vigorosas maneiras de o ser humano expressar suas emoções, o que não deixa de ser verdade, não foge à regra. Dirão alguns que tal afirmação vale apenas para a música desenvolvida dentro dos padrões ocidentais, mas, na verdade, tanto a música oriental como a folclórica, a erudita, a primitiva etc, surgem de algum tipo de organização, variando apenas a intensidade e a qualidade dos critérios que as determinam.
Não é intenção nesse artigo aprofundar o estudo da etnomusicologia, mas delinear, com brevidade, que a música sempre se fez presente na sociedade, exercendo papel potencializador no desenvolvimento das relações culturais dos diversificados grupos étnicos.
Ao longo da história, no que diz a arqueologia, as pinturas rupestres denotam a ação humana primitiva, evidenciando espécies de ritos religiosos e comemorativos e afazeres do cotidiano, o que implica em vivência grupal e exercício cultural, elucidando as tradições e identidades que ali se processaram. Não sabemos ao certo quando o homem exteriorizou os seus sentimentos através desse veículo de comunicação que denominamos de música, mas a hipótese é de que nos períodos antigos da história humana, bandos de caçadores, coletores e re-coletores já evidenciavam registros dessa musicalidade. É o que diz Martins Ferreira (2017, p.24):

É praticamente impossível discutirmos a respeito da comunicação verbal oral entre os homens pré-históricos, pois, diferentemente da comunicação verbal escrita, não nos ficou registro algum dessa época. Assim, não é descabido, mesmo que improvável, considerarmos mesmo que, já nos primórdios da humanidade, a música tenha servido de subsídio para as primeiras manifestações verbais e orais da humanidade.
Ao que sabemos, dentro do processo histórico evolutivo do ser humano, a música sempre esteve presente na práxis humana, contribuindo decisivamente na produção cultural, cientifica e educacional da humanidade. É o que afirma Antunes (2013, p.127):

Durante a Idade Média e o Renascimento, a música representava um verdadeiro alicerce da aprendizagem, ao lado da astronomia, da aritmética e da geometria. E bem antes, Platão e Aristóteles exaltavam a importância da sonoridade como veículo de educação.
É tarefa difícil definir a música, em todas as suas vertentes culturais, visto as constantes mudanças e readaptações no processo histórico. Dentre as expressões de arte do fazer humano, como elemento cultural, a música é mais versátil, dentre as manifestações humanas, conseguindo denotar e transmitir a cultura de um povo ou grupo, em amplitude planetária. Diz Ferreira (2017, p.26): “Trata-se de uma arte extremamente rica e que dispõe de farto e vasto repertório acessível em qualquer lugar do nosso planeta.”
Eleger a música como elemento cultural predominante de uma sociedade ou mesmo de um grupo de indivíduos é impossível, quando se analisa os aspectos individuais. Então a música, como determinante cultural, de uma pessoa, grupo ou sociedade, revela naquele espaço social, a predominância de um ou mais gêneros musicais, sejam quais forem as influências que se impõem, entre dominantes e dominados, seja na esfera social, religiosa, política, financeira ou educacional. Vejamos o que diz Tinhorão (2013, pp.7-8):

A primeira dessas indicações oferecidas pela história da evolução da música popular urbana no Brasil é a de que, numa sociedade diversificada, o que se chama da cultura é a reunião das varias culturas correspondentes à realidade e ao grau de informação de cada camada em que a mesma sociedade se divide. Assim como nos países capitalistas, entre os quais o Brasil se enquadra, o modo de produção determina a hierarquização da sociedade em diferentes classes, a cultura constitui, em última análise, uma cultura de classes.
Como expressão cultural, a música, por está associada aos diversos campos de ação dos saberes e fazeres humanos denota todo e qualquer tipo de intenção. Assim, as festas, sejam religiosas ou profanas, sejam manifestações críticas de cunho político, artístico, ou mesmo educacional, a música facilmente se expressa e se modifica ao saber do cliente. Nesse sentido Ferreira analisa (2017, p.25):

Hoje sabemos a relação íntima que a música tem, por exemplo, com disciplinas como a arte (em geral), a língua (portuguesa, inglesa, italiana, latina etc.), a história, a matemática, a física, a biologia, a psicologia, a sociologia, a religião etc., mas isso não limita, pois ela mantém sempre alguma afinidade com outras tantas, mesmo que não estejam diretamente ligadas ao campo da sonoridade.

Nesse sentido, sendo a MPB - Música Popular Brasileira o conjunto dos diversos gêneros musicais que se formaram das relações e tensões sociais étnicas, processadas por europeus, africanos e índios, dentro da lógica multicultural de dominação, assimilação e reelaboração de suas tradições, podemos dizer que inicialmente ocorreu a predominância dos desejos das elites, no que pertine, no que se refere a alienação das massas, mas há que se destacar no seio da MPB, que os gêneros musicais, nascidos nos espaços urbanos e rurais, assumiram movimentos reacionários, ao reelaborarem a cultura musical como o veículo reivindicatório dos direitos humanos que lhes foram indevidamente negados.
José Ramos Tinhorão (2013) tece criticas à MPB, acentuando o uso do poder do capital, empregado pelas elites para manipular a sociedade, e assim reproduzir os seus interesses. Entretanto, se ontem, os batuques dos terreiros reproduziam-se como resistência popular, hoje gêneros musicais como o funk, o rap e o hip-hop, junto ao samba e ao sertanejo, exercitados nos meios urbanos e periféricos, se apresentam como contra ponto cultural aos ditames ideológicos dos dominantes. Segundo Mônica G.T. do Amaral (2014, p.9):

De acordo com Hill, o Hip-Hop não é um subgênero cultural, mas é expressão de uma identidade libertadora e de afirmação dos jovens afro-americanos das periferias das grandes cidades dos Estados Unidos, e, por extensão, das periferias das metrópoles espalhadas pelo mundo. É com essa postura que ele propõe a Pedagogia Crítica do Hip-Hop, como expressão de uma politica e identidade para a população.
Como a música é cultura, que consegue penetrar  nos diversos pilares sociais de um povo, ela por sua extraordinária aceitação popular, e que já é alvo de disciplina específica, legalmente constituída nos Parâmetros Curriculares Nacionais, apresenta-se dentro da cultura da educação, como potente recurso didático interdisciplinar, colaborando com a relação ensino/aprendizagem, sendo o que veremos no próximo capitulo deste artigo,  que abordará o viés da música no ensino dos conteúdos da disciplina História.

A música e o ensino de História
Desde os tempos remotos que o homem ao observar a natureza passou a usar o som como meio de comunicação, o que de lá para cá, fez da música uma das maiores ferramentas, no que diz respeito ao exercício da preservação e evolução das relações sociais, culturais, e educacionais da humanidade. Assim afirma Ferreira (2017, p.24):
A música como arte de combinações dos sons é praticamente tão antiga quanto o ser humano, posto que o próprio ato comunicativo verbal é uma sequência de combinações sonoras e, portanto, em certa medida, poderia também ser considerado música.
Desse modo, a música, pela sua potencial capacidade de fácil assimilação e penetração social, se apresenta como incontestável recurso didático, no processo ensino/aprendizagem em sala de aula. E corrobora Ferreira (2017, p.25): “Como se percebe [...] a combinação sonora constantemente é utilizada como suporte ou subsídio para a memorização e para o aprendizado de qualquer coisa na vida.”
Como vimos nas linhas anteriores a eclética música popular brasileira foi alvo de manipulação das elites da indústria fonográfica e audiovisual, dirigindo a música como veículo de influência e alienação das camadas populares urbanas e rurais, sem se preocupar em usá-la como recurso didático à Educação.
A música, em sua expressão artística é um recurso cultural infinito, que agrega em si a exteriorização de sentimentos e desejos diversos que, no seu exercício, propicia o desenvolvimento cognitivo, sendo dessa forma, o uso da música em sala de aula, fundamentalmente potencial para professores e alunos, no processo de ensino, na apreensão dos conteúdos da disciplina História.

O que atualmente se defende não é apenas o ensino musical em salas de aula, seguindo vigorosos, entre outros países, o Japão, a Hungria e a Holanda, mas principalmente o despertar da potencialidade sonora em todos os alunos, e também a presença da música como veículo de ensino da língua portuguesa e da matemática, das ciências e das línguas estrangeiras e, particularmente em nosso caso, da história e da geografia. (Antunes, 2013, pp.127-128)
A música geralmente por estar culturalmente ligada aos festejos e comemorações, é incentivada e exercitada, no meio popular, para atender aos momentos de lazer e exacerbação momentânea dos sentimentos de alegria e felicidade, escondendo o cotidiano de miséria social e de falta de dignidade em que vivem as camadas mais pobres da sociedade brasileira, camuflando a indignidade, onde é negado ao povo o direito a uma vida salutar e o devido acesso ao saber, pela falta conveniente de investimentos em educação de qualidade.
Dessa forma, no Brasil, o Sistema Público de Ensino, tornou-se ultrapassado, devido à má gestão dos investimentos, resultando em desinteresse e falta de planejamento e acompanhamento na área da educação, o que significa contraponto ao que determina os PCN (1988, p,86):

A perspectiva de conferir à escola a responsabilidade de elaboração e desenvolvimento de seu projeto educativo não deve significar omissão das instâncias governamentais, tanto nos aspectos administrativo e financeiro como também no pedagógico.
Dentro das necessidades básicas que necessita uma sociedade, nos últimos trinta anos, os investimentos em projetos educacionais foram insuficientes, para que pudessem atender a uma formação de qualidade de professores e alunos, para que estes pudessem ter o devido acesso aos conhecimentos das novas tecnologias e dos novos recursos didáticos a serem utilizados em sala de aula, recursos esses capazes de promover a motivação e a dinâmica dos alunos, o que também contrariou os PCN (1998, p.86) que diz:

Projetos educativos claramente definidos permitem investimentos que estejam de acordo com as diferentes necessidades de cada localidade e que busquem, cada vez mais, um equilíbrio entre as condições de trabalho de cada escola.
O público alvo da relação ensino/aprendizagem é o aluno, e como tal, pela visão que tem de mundo hoje, pela diversidade de informações que capta, principalmente do mundo virtual, esse aluno não se sente plenamente atraído método tradicional de ensino.  O perfil do aluno do presente é outro, bem diferente do aluno de trinta anos atrás, que não possuía o aporte tecnológico e comunicativo, que o mundo virtual oferece, através da rede mundial de computadores, via os seus diversos periféricos de saída (smartphone, tablete, notebook, computador, TV-Smart, etc.).
Naturalmente cada pessoa desenvolve o seu gosto musical, identificando-se com ele, por onde também exercita a sua cultura, o seu saber e todas as suas emoções, desejos e reflexões, o que contribui na formação do caráter e identidade de cada cidadão, seja ele aluno ou professor. Nessa perspectiva, a música pode e deve ser usada, em sala de aula, no aprendizado dos conteúdos da disciplina historia, e nas reflexões críticas que levam o aluno a pensar sobre a sua realidade. Nessa linha diz Hermeto (2012, p.14): “Uma abordagem pedagógica que considere a complexidade da canção popular brasileira tende a ampliar os horizontes de leitura histórica de mundo dos alunos.”
Assim, hoje na relação ensino/aprendizagem, as aulas tradicionais, principalmente as expositivas, não atendem as necessidades e exigências motivadoras, que contemplem e possibilitem aos alunos um melhor aprendizado e aproveitamento satisfatório dos conteúdos da disciplina história, o que exige do professor que se reinvente e encontre os recursos didáticos que possam atender ao novo perfil do aluno, o que nos leva, cada vez mais, a buscar potencializar o uso da música em sala de aula visto os seus poderes cognitivo, lúdico e cultural.
Diante da realidade da didática tradicional, vivenciada no campo da Rede Pública de Ensino, nos estágios de observação e regência, com alunos do ensino fundamental II, mostrou-se claro o desinteresse desses alunos, em aprender os conteúdos da disciplina história através das aulas expositivas. Por outro lado ficou evidente o exacerbado gosto dos alunos por música, que durante as aulas se portavam ouvindo-as, via aparelho celular (smartphone). Nessa perspectiva, observei que há necessidade da elaboração de projetos de intervenção e aplicação pública, voltados para o ensino da disciplina, usando a música (canção) como recurso didático potencializador/motivador no diálogo ensino/aprendizagem.
Objetivando a elaboração de um projeto de aplicação pública voltado à realidade cultural local, através de uma relação dialógica com a comunidade escolar específica e, visando desenvolver a estratégia de didática de ensino mais adequada á comunidade, vislumbrou-se a inquietação em realizar pesquisa de campo, em duas escolas do fundamental II, para saber a opinião de professores e alunos sobre o uso da musica no ensino das aulas de história. É o que diz o PCN (1998, p.87):

O projeto educativo precisa ter a dimensão de presente: a criança, o adolescente, o jovem vivem momentos muito especiais de suas vidas; vivenciam tempos específicos da vida humana e não apenas tempos de espera ou de preparação para a vida adulta. Daí a importância de a equipe escolar procurar conhecer, tão profundamente quanto possível, quem são seus alunos, como vivem, o que pensam, sentem e fazem.
Assim como a Escola dos Annales propiciou ao historiador o olhar para novos campos e objetos da história, rompendo com a história positivista, o uso da música em sala de aula, como recurso didático no ensino dos conteúdos de história, quebrará a rotina das aulas expositivas, estáticas e repetitivas, que herdamos do mundo eurocêntrico. Nesse sentido diz CATELLI (2009, p.141): “Estudar a história do homem inclui tudo o que contribuiu para refletir acerca da experiência humana em um determinado tempo e espaço”.
O aluno de hoje é dinâmico, criativo e versátil, o que demanda que o professor também o seja em sala de aula. Dessa forma, a música se apresenta como poderoso recurso didático no ensino aprendizagem visto a sua ampla aceitação popular como expressão de arte, prazer e lazer, pelo seu fácil acesso por meio das novas tecnologias virtuais, e por sua característica dinâmica de agregar, nas relações culturais, todas as classes sociais, a música figura como potente recurso na prática docente/discente. Nessa perspectiva Antunes (2013, p.13) afirma:

A mudança de paradigma nas informações existentes no mundo de hoje, trazidas por uma visão do planeta baseada em novas tecnologias aeroespaciais, a popularização das informações alentadas pela difusão da TV a cabo, as aberturas à pesquisa e à informação científica possibilitadas pela internet, a globalização da economia e do consumo mundial, as novas revelações científicas que alteram saberes de diversos ramos do conhecimento, associadas ao avanço da pedagogia, com a conquista de novos elementos sobre a memória, inteligência, aprendizagem e criatividade, acabaram por tornar inadiável o acréscimo de substanciais mudanças no atual conceito de geografia e de história e nos procedimentos para fazê-las plenamente compreendidas pelos alunos nos ensinos fundamental e médio.

Desse modo, a música como expressão da arte, por se constituir em registro de fatos e acontecimentos, é uma rica fonte do conhecimento histórico, que em seu dinamismo, preenche os requisitos didáticos ao ensino em sala de aula, pois além da arte de registrar e propagar a História, servo ao ensino da política, da economia, da religião e toda uma gama de parâmetros sociais que se reinventam e se reelaboram, diante da cronologia do tempo, permitindo ao professor e ao aluno entender o contexto histórico do passado e do presente.
Mas por que ainda hoje a musica não é potencializada como recurso didático em sala de aula?
Nessa dinâmica, letra e música (canção) é fonte documental que revela, não só o registro do fato, mas e sobre tudo, o pensamento, a memória e a mentalidade de uma época, de um sujeito ou de uma sociedade, denotando as diversas ideologias que se evidenciam no dialogismo histórico, seja de resistência ou concordância. Uma canção não precisa dizer tudo o que ocorreu no fato, mas ao dizê-lo, parcial ou integral, torna-se fonte histórica, alvo de pesquisa e investigação, cuja comprovação cientifica servirá de base à historiografia e ao ensino/aprendizagem. Nesse sentido afirma Hermeto (2012, p.15):

Em geral, acredita-se que é impossível o professor realizar um trabalho pedagógico operando com as especificidades da linguagem cancional sem ter alguma formação em música. É fato que a formação musical facilita esse processo, mas sua ausência não é impedimento para a realização de uma abordagem histórica que leva essa complexidade em consideração, pois um trabalho dessa natureza implica, em ultima instância, que se lance questões históricas sobre a canção- o que é de domínio do professor da área – e que elas sejam respondidas a partir de operações básicas com a “gramática musical”.

Na medida em que o olhar do historiador mudou, com o argumento dos Annales, abrindo a História para a descoberta de novos objetos e sujeitos, utilizando-se de novas fontes documentais, descortinando objetos pouco ou não estudados, a música por ser prazeroso objeto das relações sociais, precisa ser potencializada como ferramenta didática de ensino, para a assimilação dos conteúdos da disciplina história. Nessa vertente, corrobora Maria Auxiliadora Schimidt (2010, p.43): “[...] adotar novos recursos para o ensino em sala de aula desfaz a ideia de que o professor é uma “enciclopédia” [...], revelando que o professor é um “construtor” que aprende e auxilia os alunos, na compreensão dos conteúdos da Disciplina História.”
Para que a música seja potencializada como ferramenta didática em sala de aula, é necessário que projetos pedagógicos de aplicação pública sejam criados e legalizados pelo Governo, como politica pública que propicie a melhoria dos índices do crescimento de qualidade da Educação Fundamental no Brasil.
A música pelo seu caráter dialógico popular, penetrante em todos os aspectos da histórica vida humana, merece do educador a atenção que a potencialize como recurso didático de ensino, e para tanto, cabe a análise adequada da canção que irá trabalhar em sala de aula. Assim, Marcos Napolitano (2002. p.86) diz:

É preciso identificar a gravação relativa à época que pretendemos analisar (uma canção pode ter várias versões, historicamente datadas), localizar o veículo que tornou a canção famosa, mapear os diversos espaços sociais e culturais pelos quais a música se realizou, em termos sociológicos e históricos.


Todo o contexto a ser trabalhado através do recurso didático da música, deve estar bem alinhado com a letra da canção, dentro de um projeto de intervenção de aplicação pública que atenda e facilite ao aluno o entendimento do assunto estudado, para que possa satisfazer aos objetivos do ensino/aprendizagem, e nesse sentido afirma os PCN (1998, p.87):

Quando alunos percebem a escola atenta a suas necessidades, a seus problemas, a suas preocupações, desenvolvem autoconfiança e confiança nos outros, ampliando as possibilidades de um melhor desempenho escolar. Isso vale também para os adultos, que trabalham na escola ou que estão de alguma forma, envolvidos com ela: professores, funcionários, diretores e pais.

No sentido de propor a potencialização da música como recurso didático de ensino e, responder aos anseios do universo escolar por uma aula dinâmica e motivacional, apresento aqui alguns resultados da pesquisa de campo qualitativa, das entrevistas feitas com professores de história, e do questionário aplicado em três turmas do ensino fundamental II (sendo uma do oitavo ano e duas do nono ano) e uma turma do ensino médio, da rede pública e privada, cujos objetivos foram claramente investigar a possibilidade de usar a música no ensino dos conteúdos da disciplina história e a partir daí, elaborar um projeto de intervenção e aplicação pública, voltado ao ensino de história, que potencialize o recurso didático da música (canção) em sala de aula.
Para a elaboração do projeto intervenção e aplicação pública, que visa o uso da música como potencial recurso didático para o ensino de História, ao expor o objetivo da pesquisa, que visa adaptar o projeto à realidade cultural local, através de uma relação dialógica com a comunidade escolar específica, visando desenvolver a estratégia de didática de ensino mais adequada, fui bem recepcionado por professores e alunos, o que ficou denotado nos resultados da pesquisa.
Assim sendo, vejamos o que disseram os Professores de História quando perguntados sobre o que achavam da ideia de potencializar a música como recurso didático no ensino dos conteúdos da disciplina. Em entrevista realizada em 19/12/2017, a professora Solange, docente de história do Colégio Estadual Pedro Calmon, do ensino fundamental II há mais de 20 anos, disse:

“Olha Hélio, eu acho assim que a música, é um recurso, né, que eu acho que é bem positivo pra ampliar essa capacidade da gente chegar, né, aos alunos. É um recurso bem, bem, bem importante, eu acho que devia ser realmente implantado, né, como um facilitador, nessas, nas ações pedagógicas nossas, no dia a dia, então eu acho que é importante.”

O professor Rangel, docente do colégio particular Centro Educacional Asas da Educação, também do ensino fundamental há mais de 10 anos, entrevistado em 19/12/2017, disse que já usa a música em suas aulas de história, sendo esse recurso bem aceito pelos alunos:

“É bastante valido, por que em primeiro lugar você tem de fazer uma sondagem, tipo de gosto musical dos discentes, pra até então você avaliar a preferência deles, e introduzir um trabalho, um projeto, algo desse tipo. Eu geralmente trabalho com música, e eu também faço composição de música, tá, de acordo com os conteúdos, como revolução francesa, iluminismo, idade media, as histórias greco-romanas, historia de guerra, em fim.”

Também o professor Orlando, docente há mais de 10 anos, do colégio particular Hildeberto Cardoso, entrevistado em 02/10/2018, disse:

“Eu acho interessante, eu acho motivador, mas eu acho que tem que ter uma dúvida, é necessário ter uma certa observação, exatamente. Você motivar os alunos com música, despertar nos alunos o interesse sobre uma ciência, no caso, como referência a História, [...] mas o que eu falo é de uma forma geral de uma matéria, de uma disciplina. Então a música pode ser uma das principais motivadoras. Dentro da música você pode ter várias nuances, você pode trabalhar diversos temas, e trabalhar também com diversas áreas. No caso a história, você contextualizar aquela letra, você verificar o que é que aquela letra tem, e abordava num determinado período é muito interessante pro aluno [...]”

A professora Simone, também da cadeira de história do ensino fundamental, do Colégio Estadual Alberto Valença, entrevistada em 22/02/2019, disse:

“Eu vou te dizer o que eu faço, não o que eu acho. [...] é um mecanismo que eu já adotei na minha pratica. Tem algumas canções, sobre tudo da axé-music,  da década de 80 principalmente que são verdadeiras aulas de Historia Antiga, das civilizações antigas, então assim, faz muito mais sentido que eu explico pra  aquela criança [...] explicar sobre o Egito utilizando a canção Faraó, do que encher o quadro de coisas. Então assim, é mais próximo dele ou dela, daquela criança, e não só a música Faraó, mas as outras também. A Banda Reflexus tem muita canção que fala sobre a história das antigas civilizações africanas, e quando você trás isso, as crianças conhecem sim, porque os pais ouvem, os avós ouvem, então assim, não é uma ferramenta distante. Quando você diz assim, a música como uma ferramenta potencializadora do ensino de história, eu acho perfeito [...]”

Ainda para fundamentar e validar o presente artigo e justificar a elaboração do projeto pedagógico, perguntei aos alunos do fundamental II e ensino médio se gostariam de aprender os conteúdos da disciplina historia ouvindo música relacionada ao tema, e obtive os seguintes resultados do universo de 115 alunos: 96 (83,5%) alunos disseram que sim; 7 (6,1%) disseram que talvez e; 12 alunos (10,4%) disseram que não, ou seja, para cada 7 alunos, 6 aprovam o uso da música no ensino dos conteúdos disciplina.
Vejamos o que disseram dois alunos de cada turma, do universo de 96 alunos (83,5% dos 115 alunos), da rede de ensino de Salvador - BA., que aprovam o uso da música como recurso didático nas aulas de história: O aluno A.C.M.A.N., do 9º ano da instituição particular Colégio Hildeberto Cardoso, questionado em 26/10/2018 disse: “Sim, seria um ótimo método. Os estudantes da disciplina sentiriam mais facilidade pra absorver os conteúdos.”
A aluna A.V.B.O.R.S. questionada em 30/10/2019, do mesmo Colégio e ano disse: “Sim, com certeza seria super mais fácil, compreensivo e legal de entender o assunto.”
O aluno T.B.A.P.F., do 3º ano do ensino médio do mesmo Colégio, questionado em 19/10/2018, disse: “Sempre fui ligado ao movimento Hip-Hop e isso me fez procurar entender sociologia (por conta de referências e o movimento negro). Por isso, sim e gostaria.”
Já o aluno A.C.A.J., também do 3º ano do ensino médio do mesmo Colégio, também questionado em 19/10/2018, disse: ”Sim, acredito que seja um excelente instrumento.”
A aluna T.R.S.S., do 8º ano do Colégio Estadual Alberto Valença, em 22/10/2019 disse: “Seria melhor, porque acho que é um jeito de ensinar melhor os adolescentes hoje em dia.”
A aluna A.V.C.S. do mesmo ano e Colégio e, na mesma data disse: “Sim, seria uma forma interessante pra aprender.”
A aluna L.E.S.C. do 9º ano e Colégio e, em 19/03/2019 disse: “Sim, acho que ia desenvolver mais a matéria.”
Já o aluno M, do mesmo ano e Colégio e data, disse: “Sim, seria muito bom, acho que seria muito legal ajudaria no aprendizado.”
Tais resultados comprovam a ampla aceitação da música como recurso didático potencial a ser utilizado no processo ensino/aprendizagem dos conteúdos da disciplina história, o que além de atestar a aprovação dos professores e o gosto dos alunos, reforça o estímulo e o dinamismo que a música pode proporcionar em sala de aula, comprovando que é necessário a sua potencialização através de projetos pedagógicos que obrigatoriamente usem esse imponente recurso no referido processo, uma vez que o perfil do aluno de hoje exige aulas mais dinâmicas, participativas, motivadoras e atualizadas, que contemplem a velocidade das múltiplas informações que são canalizadas pela sociedade globalizada via novas tecnologias.
Para Selva Guimarães Fonseca (2012), explorar as infinitas possibilidades do manejo, exercício didático e utilização da música popular brasileira como fonte é um caminho necessário para construir uma prática educativa “que revelam sensibilidades, criatividade, o gosto e o prazer de alunos e professores que incorporam canções no ensino de História”.

Da inquietação já relatada, oriunda do desinteresse e falta de motivação dos alunos do fundamental II, da rede pública de ensino de Salvador, um projeto de ensino pelo viés da música como recurso didático, que desperte o interesse e motive os alunos é uma, dentre as alternativas, que pode melhorar os índices de rendimento escolar, salientando que tal projeto necessitará de políticas públicas voltadas para o investimento em Educação, o que propiciará a professores e alunos, as condições satisfatórias no processo ensino/aprendizagem.
De certo, visto a atual situação do sistema tradicional de ensino, ainda alimentado pela predominância de aulas expositivas e monótonas, é primordial como ponto de partida para a elevação dos índices do rendimento escolar, a implantação de um projeto de intervenção e aplicação pública, que motive e dinamize o ensino da disciplina história, projeto este que poderá, no futuro, se estender para as outras áreas do conhecimento e aos demais espaços públicos de ensino, onde a música se apresenta como recurso didático de elevado potencial.



Considerações finais
Como vimos, a musica (canção) é um elemento histórico e cultural de fácil penetração em todas as classes sociais, capaz de reunir ricos e pobres, brancos e negros, tornando-se grande vetor da promoção e resolução das questões sociais.
A música por sua ampla aceitação social, por funcionar como ferramenta de luta no processo das relações sociais entre dominantes e dominadas, precisa ser mis utilizada no processo ensino/aprendizagem.
Segundo Alessandra Cruz et all, (2019) a relação entre música e ensino de História possivelmente abre possibilidades de se  “construir um caminho ritmado entre fatos, acontecimentos, poesias e canções que levem os alunos a compreender a disciplina história com outro olhar e novas perspectivas.”

Por ser amplamente aceitável e acessível por todos os povos em suas diferentes culturas e pilares sociais, a música precisa ser valorizada e potencializada como recurso didático no ensino de historia e das demais áreas do conhecimento, como diz Hermeto (2012, p.13): “A rigor, a canção popular pode (e deve) ser utilizada como recurso didático no ensino de História em qualquer segmento da educação.”
Ainda segundo Alessandra Cruz, et all, (2019): “O ensino de história com a música não se detém apenas a um exercício de interpretação das canções como um instrumento didático lúdico e dinâmico, mas, principalmente um aprofundamento metodológico que convida os alunos a pensar a canção como uma fonte histórica que expressa a realidade vivida por eles em sua sociedade e amplia seu repertório de análise sobre os contextos históricos.”
Como vimos o uso da musica como fermenta facilitadora do processo ensino/aprendizagem, pela potencial amplitude de penetração que exerce no seio da sociedade, não pode mais sofrer de vilipêndio. É preciso criar políticas públicas de ensino, para que professores e alunos, das diversas áreas do conhecimento, possam ser beneficiados com uma educação de qualidade.


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